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Um dos mais intrigantes
julgamentos mitológicos que se tem registro na história de nossa
civilização ocidental, ocorreu no Areópago de Atenas e chegou-nos pelas
mãos pioneiras do veterano tragediógrafo Ésquilo. É na terceira obra de
uma trilogia chamada “Oréstia”, intitulada “Eumênides” (548 a.C.) que a
deusa da Sabedoria e da Justiça Palas Athena irá presidir com maestria o
tribunal que julgará o crime de matricídio de Clitemnestra, mulher e
assassina do lendário Rei de Esparta Agamêmnon, cometido por seu filho
Orestes. O filme “Tróia”, do diretor alemão Wolfgang Petersen, estrelado
pelo ator Brad Pitt, omite, dentre outros fatos, o desvario de Agamêmnon
em sacrificar sua filha Ifigênia para conseguir atrair bons ventos e poder
assim partir para conquista e pilhagem da antiquíssima e rica Tróia. O que
motivará seu assassínio pela esposa.
Antes que sejamos acometidos pela confusão em meio a tanto sanguine
coniunctae vamos esclarecer: Ésquilo e Sófocles são os primeiros (e
insuperáveis) exponenciais da tragédia grega a abordar a hamartía, marca
da maldição familiar, portanto, hereditária.
Ésquilo abordará o desdobramento da hybris (desmedida) iniciada por
Tântalo ao sacrificar seu filho Pélops e oferecê-lo num banquete a fim de
testar a onisciência dos deuses. Diz o mito que a deusa Deméter, tomada
por preocupação e angústia devido ao desaparecimento da filha Perséfone,
foi a única a, distraidamente, ingerir um pequeno pedaço da funesta
iguaria. Os deuses decidem restituir a criança à vida e restauram o pedaço
do ombro ingerido por Deméter, em mármore. Esta marca – hamartía – irá
acompanhar toda geração descendente de Tântalo. E para ele, Tântalo, o
pior dos castigos: enterrado vivo até a cabeça, com água e alimentos
próximos, condenado a permanecer eternamente sedento e faminto. Quando
perto de realizar sua satisfação, esta, invariavelmente, se afasta. É
dessa linhagem maldita que sairão os irmãos Agamêmnon e Menelau, o marido
de Helena. Portadores da maldição dos Atridas, da Casa de Atreu.
Sófocles, por sua vez irá discorrer sobre a maldição da Casa dos Labdácias,
que tem início com o desrespeito a sagrada Lei da Hospitalidade, por parte
de Laio que, ao nutrir uma condenável atração pelo filho de seu anfitrião,
raptou o jovem Crísipo, filho do Rei Pélops, outro de família marcada.
Muitos intérpretes constatam aqui o registro do início da pederastia na
grécia. Teria sido Laio, pai de Édipo, pioneiro no hediondo crime de
pedofilia?
No artigo anterior versamos sobre o conflito que se dá no interior da
psique humana quando do embate entre Thémis e Diké, presentes em
“Antígona”, terceira obra que compõe a trilogia de Sófocles, as outras
duas são: “Édipo Rei” e “Édipo em Colono” (bairro de Atenas). Neste texto
de Ésquilo, o confronto se dará fora de nós, na pólis, mais explicitamente
através dos ajustes políticos que se fazem necessários, entre o
matriarcado e o patriarcado.
Os poetas-aedos (cantores) retratam a história da luta entre os antigos
deuses, fundadores da velha ordem e os novos deuses, archotes das novas
leis pois a pólis, o meio político – habitat natural do animal racional –
já se delineia na Hélade, nome da antiga Grécia.
Por estarmos comemorando neste mês o Dia das Mães, recortaremos aqui uma
das questões mais originais suscitadas neste julgamento de Orestes pelo
matricídio. Sem ironia alguma, trata-se de um fecundo tema. Temos o
registro da evolução da história, o mito e seu desdobramento no mundo
atual.
Para a religião arcáica (cerca de 1.200 a.C.), que tem como herdeiros
Homero e Hesíodo, a mais antiga Lei era a das profundezas da terra. Quem
derrama sangue materno ofende e viola o direito inexorável da terra-mãe.
As Erínias, apresentadas pelos primevos poetas, também conhecidas como “As
Fúrias”, a vingança, nascidas do sangue que jorrou dos órgãos genitais de
Urano (Ouranós, os Céus), ceifado por seu filho Chronos (o tempo, Saturno
para os romanos), implacavelmente perseguiriam não deixando impune o mais
aviltante crime contra a própria natureza. Para esta cultura só existe um
laço sagrado: o de mãe e filho.
Retomando o desenrolar da machina fatalis: Agamêmnon sacrifica a filha
Ifigênia, é assassinado pela mulher Clitemnestra e vingado pelo filho
Orestes, por ordem expressa do deus Apolo.
Orestes, apavorado com as Erínias sob seu encalço, profundamente
perturbado mas, respeitosamente, procura abrigo no templo da deusa da
Justiça. Abraçado aos pés da estátua de Palas Athena, suplica por um
julgamento e, contando com a pronta defesa do deus da harmonia Apolo,
anseia por acolher o veredicto que vier.
Uma mudança não se dá sem luta. O filósofo pré-socrático Heráclito já nos
alertava; “A guerra é Pai de todas as coisas”. Chegou o inadiável momento
em que se travará o definitivo embate entre: a) de um lado, as ctônicas
forças das profundezas da terra, a natureza germinadora, das trevas
subterrâneas do Hades, personificações antropomórficas (que o homem
constrói imageticamente à sua semelhança) dessas potências (as Erínias
representam o matriarcado) e; b) do outro, o dia claro da razão, a nova
luz do Olimpo presidido agora por Zeus, o lógos que se impõe à instauração
da política humana que se assenta em Diké, a lei da pólis (Apolo e Palas
Athena, arautos da nova ordem, representam o patriarcado).
Todo processo de julgamento de Orestes procede-se cerimoniosamente como o
instituímos até hoje, mais de vinte e cinco séculos depois: apresenta-se o
réu e a denúncia, o advogado de defesa (Apolo) e as acusadoras (as Erínias),
o júri (doze atenienses) e a juíza (Palas Athena).
Quando Orestes indaga ao coro porque as Erínias não perseguiram sua mãe
Clitemnestra ao matar seu pai, este afirma não ter sido cometido crime
contra o sangue, ao que ele prontamente indaga: “e eu seria, por acaso, do
sangue de minha mãe?” Indignadas, as Erínias perguntam: “Não foi ela,
assassino, quem te alimentou em seu seio? Renegas o dulcíssimo sangue
materno?”.
Para o matriarcado, o pai, seja ele quem for, apenas deposita a semente na
mulher, como um lavrador anônimo que semeia a terra, verdadeira fonte de
tudo o que brota.
Já para o patriarcado, a mulher é, assim como a terra, apenas depositária
da semente, sendo, portanto, o pai o grande responsável pelo que brota,
enquanto a mãe, forma, matriz fria e passiva não gera, apenas alimenta o
germe nela semeado.
O argumento apresentado na defesa de Orestes por Apolo alude ao nascimento
da juíza Palas Athena, ela mesma gestada nas meninges de Zeus e parida
pela machadada certeira do ferreiro divino Hefestos (Vulcano para os
romanos).
Iradas com Apolo, as Erínias vociferam e ameaçam: “Tu jovem deus, esmagas
nossa velhice, mas aguardo a sentença e contenho até lá minha cólera
contra a cidade”.
Enquanto os doze cidadãos atenienses depositam seus votos na urna, a deusa
da Justiça esclarece: “Serei a última a pronunciar o voto. E os somarei
aos favoráveis a Orestes. Nasci sem ter passado por ventre materno; meu
ânimo sempre foi a favor dos homens, à exceção do casamento; apóio o pai.
Logo, não tenho preocupação maior com uma esposa que matou o seu marido, o
guardião do lar; para que Orestes vença, basta que os votos se dividam
igualmente”.
Faz-se silêncio. Diante da ansiedade de todos os presentes, uma pausa. A
deusa dá seu veredicto: “Este homem está absolvido do crime de matricídio
porque o número de votos é igual dos dois lados”. Há em jogo algo mais
relevante neste tribunal in dubio pro reo, neste tribunal da justiça e não
da vingança.
Com o “voto de Minerva” dá-se o estabelecimento da supremacia da luz do
lógos sobre as “Fúrias”, forças ctônicas da natureza. O pai, guardião do
lar e não a mãe, tem a prioridade do direito que procede de Zeus, pai de
ambos, Apolo e Palas Athena. Estes são os novos deuses, os do Olimpo, com
suas novas leis.
Sobre o inconformismo das imortais Erínias, habitantes das entranhas da
matéria elas, filhas da noite, que originam toda espécie de vida
“detentoras do nascer e do morrer, os dois pontos finais entre os quais,
segundo Platão, move-se a trajetória de todas as coisas”, vaticinam sérias
ameaças à cidade de Atenas.
A sapientíssima juíza, gestada na cabeça (razão) de Zeus, graças à arte da
retórica, conteve as “Fúrias” com incomensurável empenho. Reconhecendo
seus poderes, prometendo-lhes mansões e templos dignos, tem seu voto de
desempate acolhido pelas Erínias que passam a ser reverenciadas em Atenas
e a ser chamadas “Eumênides”: as benevolentes (daí o título da obra). Quem
mais senão a diplomática Palas Athena, com seus lúcidos e irrefutáveis
argumentos para aplacar as Erínias?
Por não vivermos mais numa sociedade exclusivamente agrária, governada e
endeusadora da terra e da fertilidade, por termos agora que estabelecer
novas leis conciliatórias sobre a violência que nasce da vingança dos
crimes de sangue, do “sanguine coniunctae” que dizimava famílias inteiras
na Hélade, o direito ao julgamento, a política da pólis se impõe: Vitória
do Lógos!
Elementar que a contagem de votos tenha empatado: o filho é do pai tanto
quanto também é da mãe. Superada a fúria cega das forças brutas,
indiscriminadamente germinadoras, caberá à pólis deter o caos e instaurar
a ordem.
Poder germinador da terra: dom e graça das Mães. Em nossa desequilibrada
sociedade atual constatamos que, definitivamente, não é mais sábio (Palas
Athena) nem harmonioso (Apolo) que o exerçam sozinhas, quando antes da
pólis.
Do ventre das férteis Erínias de nosso solo proliferam frágeis e
desamparadas sementes, de irresponsáveis (posto que ausentes) lavradores
anônimos. Pipocam falcões: frutos das brutas potências titânicas da
natureza, abandonados ao descaso dos tirânicos da pólis. Crias da
escuridão e da injustiça, trágica e inocentemente distantes da luz de
Apolo e/ou da justiça de Palas Athena. À espreita, o desumano terror do
insondável reino do Hades para onde precoce e violentamente regressam após
agonizante existência.
Para as Mães e os Políticos, o sublime Hölderlin (poeta alemão 1770-1843)*
Os Poetas Hipócritas
Dos deuses, ó frios fariseus, não me faleis:
Pois de razão viveis, e em Hélios não acreditais,
E nem mesmo no Tonante, e nem no deus do mar!
Jaz a terra morta, e quem deve agradecer?
Paciência, deuses, que o cantar ainda laureais,
Mesmo em fuga esteja a alma aos nomes vossos!
E quando falte um verbo de grandeza,
Que em ti se pense então, Mãe Natureza.
(*) Canto do Destino e outros cantos – Friedrich Hölderlin. Organização,
Tradução e Ensaio Antonio Medina Rodrigues. Ed. Iluminuras, 1994 – São
Paulo, SP.
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