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Artigos de Filosofia


Adam Smith:
Autodomínio sobre o Orgulho e a Vaidade

Luciene Félix
Professora de Filosofia e Mitologia Greco-Romana da ESDC
 mitologia@esdc.com.br

Blog: www.lucienefelix.blogspot.com

“Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”


Frontispício da Capela dos Ossos, na igreja de São Francisco (Évora, Portugal), erguida entre os séculos XVI-XVII e ornamentada de ossada humana.
 

Não há como estimarmos nosso próprio valor (e o de nossos pares), aferir mérito e demérito, êxito ou fracasso, sem que estabeleçamos critérios. É demasiadamente humano compararmo-nos aos demais. Estamos inseridos e amarrados a esse jogo.

Comumente dirigimos o olhar aos nossos semelhantes, àqueles que de algum modo alcançaram o que valoramos e almejamos em termos de virtudes, sucesso, fortuna e felicidade. Nada mais natural que nos espelhemos nas pessoas que o ordinário senso comum, elege, estabelece e propaga como sendo os mais magníficos padrões de excelência.

Talvez porque ainda não sejamos suficientemente racionais, relutamos a avaliar nossa conduta considerando modelos abstratos, ideais, arquétipos de perfeição. Sensíveis ao que nos chega pelos sentidos (perdoem a redundância), atemo-nos ao mundano e, nessa seara, o princípio da autoestima pode ser tanto muito elevado quanto muito baixo. Não espanta que alguns de nós, em distintas circunstâncias, se considerem superiores, muito superiores ou inferiores aos demais, independente de realmente o sermos.

Mas estejamos cônscios de que, ao intentar realizar uma auto-avaliação, isenta e imparcial, de nosso comportamento, dispomos de dois critérios de julgamento. Sob essa sensível percepção, Adam Smith nos explica o Orgulho e a Vaidade, ambos provenientes de um excesso de autoestima.

Para Smith, há dois padrões diferentes com os quais – ora um, ora outro – nos comparamos. Seremos mais ou menos orgulhosos e/ou vaidosos, conforme o padrão adotado.

Sobre o primeiro padrão, ele afirma que: “é a ideia de exata conveniência e perfeição, na medida em que cada um de nós é capaz de compreender essa ideia”. Obviamente, essa “capacidade” de compreensão já é distintiva.

O homem sábio e virtuoso se empenha em perseguir esse ideal: “Imita, contudo, a obra de um divino artista, que jamais poderá ser igualada”. Consciente de suas fraquezas, esse homem se sente constrangido e se aflige quando “por falta de atenção, de discernimento e moderação, violou em palavras e ações, em conduta e conversa, as regras exatas da perfeita conveniência (...)”, diz Smith.

Esse extraordinário primeiro padrão de auto-avaliação (visivelmente platônico) impede que a arrogância e a presunção se instalem: “o mais sábio e melhor de nós nada pode ver em seu próprio caráter e conduta senão fraqueza e imperfeição (...), inúmeras razões para humildade, remorso e arrependimento”.

O segundo padrão de auto-avaliação (mais aristotélico) é da excelência do mundano, concreto, real, mais ordinário; segundo Adam Smith “é aquele grau de aproximação com essa ideia que habitualmente se obtém no mundo, que a maior parte de nossos amigos e companheiros, rivais e competidores, pode ter realmente atingido”.

Ambos os padrões cultuam, por exemplo, o sucesso. Mas no primeiro, nunca um sucesso a qualquer preço; ambos coroam o êxito profissional, mas jamais em qualquer “atividade” profissional; ambos anseiam por aplausos, mas não de qualquer platéia.

Prova cabal da veracidade de distintos padrões, por mais bem sucedidos que sejam, não tributamos honra às sinistras patifarias de desprezíveis muambeiras de luxo, empresários de prostíbulos, sonegadores, megatraficantes, especuladores financeiros, exploradores da fé, da miséria e da ignorância dos povos e de execráveis corruptos.

Se pautarmos nossa conduta tendo em mente o ideal de perfeição, dificilmente estaremos plenamente satisfeitos com efêmeras conquistas mundanas. Isso nos torna mais condescendentes, complacentes, humanitários e dignos. Modéstia, delicadeza, humildade e acurácia do espírito (sensibilidade) impedem a prepotência de arrogarmos valor acima de nosso próprio mérito.

Se, por outro lado, balizarmos nossa autoestima, nosso amor-próprio, nosso sentimento de valor unicamente através do grau de excelência que nossos amigos e conhecidos atingiram, podemos de fato, entrever alguma superioridade: “(...) há algumas que real e justificadamente se sentem acima dele, e que assim são reconhecidas por todo espectador inteligente e imparcial”, salienta o pensador.

Dentre os riscos de julgarmos nosso caráter nos atendo somente ao segundo padrão de excelência, está o de nos tornarmos arrogantes, soberbos e patéticos, sobretudo quando (mesmo detendo uma inteligência notoriamente acima da média, grande fortuna ou virtude, por exemplo) somos vaidosos e nos deixamos levar pela admiração geral da multidão: “o próprio rumor dessas tolas aclamações contribui muitas vezes para confundir o entendimento (...) a grande populaça [o populacho] está naturalmente predisposta a erguer os olhos com uma admiração espantada, embora sem dúvida muito fraca e tola”, nos adverte o sapientíssimo Sr. Smith.

E assim, somos enredados na teia dos vícios do orgulho e da vaidade, com o risco de nos cercarmos de muitos bajuladores e (pior) ardilosos traidores. Smith salienta que “Uma vez que esses dois vícios freqüentemente se mesclam no mesmo caráter, necessariamente suas características se confundem; e às vezes encontramos a ostentação superficial e impertinente da vaidade reunida à mais maligna e ridícula insolência e orgulho”. É por isso que, muitas vezes, não sabemos se classificamos um caráter colocando-o entre os orgulhosos ou entre os vaidosos.

Orgulhoso é o indivíduo que “se acha”, e está sinceramente convencido que é o tal. Realmente tem uma autoestima inquebrantável. Para ele, todos os demais são mesmo inferiores; talvez apenas não tenham percebido isso. Àqueles que o criticam, o orgulhoso despreza, ou simplesmente desdenha-os. Não raro, é alvo de críticas, pois costumamos censurar ou abandonar àqueles que arrogam uma superioridade que não possuem.

O Vaidoso, por sua vez, é inseguro, precisa que os outros afiancem seu valor. Insiste em destacar seus feitos e qualidades: “Longe de desejar mortificar tua autoestima, fica feliz em cultivá-la, na esperança de que em troca cultives a dele. Lisonjeia para ser lisonjeado; estuda como agradar, e esforçar-se por subornar-te para que tenhas boa opinião dele mediante polidez e complacência”, revela Adam Smith.

É sabido que reverenciamos talentos e virtudes, bem como que respeitamos posição e fortuna (bens materiais). O Vaidoso é refém dos signos de status, para usurpar o prestígio da fortuna, por exemplo, o deslumbrado se endivida por grifes da moda, automóveis sofisticados, alta tecnologia, viagens e restaurantes caros; Smith alerta para o fato de que: “(...) anunciam uma posição e uma fortuna maiores do que as que realmente possuem; e, a fim de manter, essa tola impostura por alguns poucos anos, não raro se vê reduzido à pobreza e aflição muito antes do fim da vida”. Assim, o descontrole leva ao desespero de faltar salário e sobrar mês.

Mais confiante, o orgulhoso não paga esse mico. Para Adam Smith: “Seu senso da própria dignidade o torna cauteloso na conservação de sua independência e, caso sua fortuna não seja grande, ainda que deseje apresentar-se com decência, estuda meios de ser frugal e atento em todas as suas despesas”. Diferente do orgulhoso, o vaidoso é fake, talvez por isso, ainda mais lamentável.

Cultivar uma elevada autoestima é salutar: “É tão agradável julgarmo-nos favoravelmente, e tão desagradável julgarmo-nos medíocres, que a própria pessoa [e até o espectador] não duvida de que algum grau de excesso deve ser menos desagradável do que qualquer grau de falta”, diz Adam Smith. Quanto à ausência de autoestima, postei, na íntegra, a análise do autor sobre a idiotia e o idiota, confira logo abaixo.

Ter-se em alta conta é benéfico, fundamental para nosso progresso e evolução, pois, como diz o estudioso, grande êxito no mundo, visível autoridade sobre sentimentos e opiniões, imortalidade na memória da humanidade, raramente foram obtidos sem algum grau dessa excessiva admiração de si: “os homens que realizaram as ações mais ilustres, que provocaram as maiores revoluções (...), os mais bem-sucedidos guerreiros, os maiores estadistas e legisladores, os eloqüentes fundadores e líderes das mais numerosas e bem-sucedidas seitas e partidos – muitos destes não se distinguiriam mais por seu intenso mérito do que por um grau de presunção e admiração de si inteiramente desproporcional até mesmo em relação a esse imenso mérito”.

Ao olhar de um sábio, no entanto, somente a análise objetiva, diante do imortal e não da transitória fama é que se revela o verdadeiro valor de um homem. O sábio é extraordinário; por mais enaltecido que seja, é consciente do quão distante está da verdadeira excelência.

Com baixos padrões de comparação, resvalamos facilmente ao orgulho e vaidade. Com altos padrões de comparação (a ideia de perfeição) saberemos quem realmente somos e nos empenharemos cada vez mais a atingir o ideal. Sempre abaixo do divino, mas seguramente, muito acima do mundano.

 


 

Anexo A - Adam Smith e a descrição do idiota

 

As pessoas infelizes, a quem a natureza formou bastante abaixo do nível comum, às vezes parecem atribuir-se um valor ainda mais baixo do que realmente possuem. Às vezes essa humildade parece mergulhá-las na idiotia.

Quem quer que tenha se dado o trabalho de examinar os idiotas atentamente, descobrirá que em muitos deles as faculdades do entendimento não são em absoluto mais fracas do que em várias outras pessoas as quais, embora sabiamente embotadas e estúpidas, não são consideradas idiotas.

Muitos idiotas, que receberam uma instrução comum, aprenderam a ler, escrever e contar razoavelmente bem. Muitas pessoas jamais consideradas idiotas, a despeito da mais cuidadosa instrução, e a despeito de terem, em sua idade avançada, suficiente espírito para tentar aprender o que na infância sua instrução não lhes ensinou, nunca conseguiram obter em grau razoável uma só dessas três habilidades. Por um orgulho instintivo, contudo, elevam-se ao mesmo nível de seus iguais em idade e situação, e, com coragem e firmeza, mantêm adequada sua posição entre seus companheiros.

Por um instinto oposto, o idiota sente-se inferior a todos os companheiros a quem o apresentares. Maus tratos, aos quais é muito exposto, podem lançá-lo aos mais violentos ataques de cólera e fúria. Mas nenhum trato agradável, nenhuma gentileza ou tolerância podem animá-lo a conversar contigo como teu igual. Se ao menos puderes fazê-lo conversar contigo, verás, porém, que muitas vezes suas respostas são bastante pertinentes, e até sensatas. Mas estão sempre marcadas com uma nítida consciência de sua imensa inferioridade.

O idiota parece encolher-se, como se se afastasse de teu olhar e da tua conversa, e, ao colocar-se na tua situação, parece sentir que, apesar de tua aparente condescendência, não podes evitar considerá-lo imensamente inferior. Alguns idiotas, talvez a grande maioria deles, parecem ser assim, principal ou inteiramente por certa estupidez ou torpor das faculdades do entendimento. Mas há outros em que essas faculdades não parecem mais estúpidas ou entorpecidas do que em muitas outras pessoas não consideradas idiotas

O orgulho instintivo, necessário para provê-las de uma igualdade com seus irmãos, parece, todavia, faltar totalmente aos primeiros, não aos últimos

(...) O homem que se estima como deveria, e não mais do que deveria, raramente deixa de obter de outros toda a estima que julga ser-lhe devida. Não deseja mais do que lhe é devido, e fia-se nisso com total satisfação.

O homem orgulhoso e o homem vaidoso, ao contrário, estão sempre insatisfeitos. Um é atormentado por indignação pela superioridade, que julga injusta, de outras pessoas; outro teme continuamente a vergonha que prevê resultaria do desmascaramento de suas infundadas pretensões.

Até as extravagantes pretensões do homem de real magnanimidade, quando amparadas por esplêndidas habilidades, virtudes e, sobretudo, pela boa fortuna, impõem-se à multidão, cujos aplausos pouco lhe importam, embora não se imponham aos homens sábios, cuja aprovação só pode valorizar, e cuja estima está tão preocupado em obter.

Percebe que decifraram, suspeita de que desprezem, sua excessiva presunção; e muitas vezes sofre o cruel infortúnio de tornar-se, primeiro inimigo invejoso e secreto, e finalmente, declarado, furioso e vingativo, das mesmas pessoas cuja amizade lhe teria proporcionado imensa felicidade usufruir com insuspeita segurança.

Embora nosso desgosto para com os orgulhosos e vaidosos freqüentemente nos predisponha a posicioná-los antes abaixo que acima de seu lugar apropriado, muito raramente nos aventuramos a tratá-los mal, a menos que nos instigue uma impertinência particular e pessoal. Em casos comuns, esforçamo-nos, para nosso próprio bem, para aquiescer e, conforme pudermos, para acomodar-nos à sua loucura.

Mas ao homem que se subestima, a não ser que tenhamos mais discernimento e mais generosidade do que a maioria dos homens é raro deixarmos de fazer pelo menos toda a injustiça que ele faz a si mesmo, e freqüente fazermos injustiça ainda maior. Este não apenas é muito mais infeliz, quanto a seus próprios sentimentos, do que os orgulhosos ou os vaidosos, como também muito mais passível a toda a sorte de ofensas por parte das outras pessoas.

Em quase todos os casos, é melhor ser um pouco orgulhoso demais, do que demasiado humilde em qualquer aspecto; e quanto ao sentimento de auto-estima, algum grau de excesso parece, tanto para a própria pessoa, como para o espectador imparcial, ser menos desagradável do que qualquer grau de falta.

Adam Smith – Teoria dos Sentimentos Morais, Seção III – Do autodomínio (páginas. 325-327)

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